15 de setembro de 2014

O último

O último cigarro foi aceso no caminho pra casa.
Parei no sinal vermelho ainda embrigada com os prazeres de uma boa conversa, olhei a noite e resolvi acender.
Seria uma despedida. Despedir depois de me despir da vergonha, dos preconceitos, das máscaras sociais.

Eu já havia bebido, mas desejei mais uma cerveja.
Acendi o cigarro. Enquanto tragava, pensava na vida.
O sinal ficou verde.
Combinação automática de ações: pisar na embreagem, engatar a marcha e acelerar. Mas eu não quis imprimir velocidade.
Arranquei calmamente, analisando cada movimento.

Eu não queria chegar em casa.
O último cigarro foi consumido em câmera lenta.
Enquanto me desfazia da fumaça, lançava fora cada problema. Na fumaça que subia aos céus, subia uma prece pedindo por paz.

Pela janela observei a cidade a dormir. Sempre gostei de dirigir de madrugada. Me encontro nos meus caminhos solitários.
O rumo está certo, e eu vou devagar, sem pressa pra chegar.

O último cigarro não foi fumado por stress ou coisa parecida.
O último foi minha despedida.

3 de setembro de 2014

Sobre o eterno medo de fracassar

O sono demora a vir. Mais uma daquelas noites onde dormir será uma tarefa fracionada.
A chuva escorre gota a gota pela janela de vidro. A parte metálica da janela, que está fechada, fica responsável pelo barulho que deixaria a cama acolhedora, não fosse a quantidade de chá que tomei agora a noite.

Na cabeça, alguns pensamentos rodopiam. Frases de músicas que insistem em se repetir. Perguntas e mais perguntas. Afinal, o que seria da Priscila se ela não fosse atormentada pelas perguntas. São incansáveis questionamentos. Incansáveis interrogações que insistem em surgir nas horas mais inapropriadas.

Sempre tive mania de questionar. De tentar novas formas, de subverter a ordem natural das coisas, só que tudo isso só acontece dentro desse mundo à parte que eu crio dentro de mim.

Hoje imaginei cenas. Fiz inúmeros roteiros para uma noite despretensiosa. Ainda assim eu crio cenas. Diálogos, monólogos. Conversas que só acontecem dentro de mim.
Fico na dúvida entre falar tudo ou calar.

Senti saudades em Campo Grande.
Sinto saudades em São José.
Sou saudosa a todo instante e isso me preocupa. Me faz criar mais uma questão: O que eu estou fazendo do meu "agora"?

Domingo eu me senti impotente. Quase surtei. Mas como boa moça que sou, segurei firme. Pensei no que meu pai diria se me visse nervosa por conta de bobeira.
Só que nem sempre dá pra ser forte. Aí nos momentos mais bobos eu demonstro que eu também sou sensível, que eu também tenho defeitos e que eu não sou sempre essa pedra de gelo ambulante.

Eu erro. Eu pago pelos meus erros em silêncio.
Falando em silêncio: hoje percebi, por meio de uma coisa boba, que na grande maioria das vezes eu opto por sofrer calada.

Eu tenho um medo tão grande de fracassar. Só não sei fracassar no quê.
A vida profissional está indo bem.
A sentimental... Bom, estou colhendo o que eu plantei. A bem da verdade, hoje senti um friozinho na barriga.
E uma espécie de tristeza. Uma tristeza que invade o peito toda vez que eu percebo que...
Melhor deixar pra lá.

No fundo, eu morro de medo de machucar de novo. Me resguardo.

Eu só queria que desse certo uma vez na vida. Que fosse igual, que eu me apaixonasse e fosse recíproco. Que fosse leve, gostoso, terno.
Sinto falta de companhia. Sinto falta de ter pra quem contar meu dia. Sinto falta principalmente de que alguém se interesse em saber como foi o meu dia.

Não é que eu não estou feliz. Sim, estou.
Estou com a plena certeza de que nunca estive melhor.
Eu só sinto falta de ouvir um "eu também pensei em você" quando digo isso,

E eu tenho tanto medo de machucar as pessoas.
Tanto medo de gostar das pessoas erradas. Tanto medo de não dar certo quando eu resolver tentar outra vez.
Cansa saber que alguém saiu ferido da história.

A noite vai ser longa.

A chuva continua caindo. O sono continua longe, ainda assim, resolvi deitar.


1 de setembro de 2014

Sobre setembro

Aí você toma um tapa na cara, agosto termina da pior possível.
Aí você aprende da pior maneira possível.
E então você volta pra casa, pro lugar de onde você não deveria ter saído.

Ou deveria.
Aprendi muita coisa nesse mês.
Aprendi a deixar ir, a me irritar. A não me irritar, a deletar quem não acrescenta em nada na vida.
Se bem que até com mau exemplo a gente aprende: aprende a não fazer igual.

Setembro chegou.
A constatação de que estou acima do peso desejado também.
Ah, também estou com um acúmulo de celulite. E isso está me incomodando.

Agora resta saber se eu vou levantar minha bunda da cadeira e fazer alguma coisa pra mudar tudo isso.
Um ano sem namorar (a volta em março não conta).
Tá na hora de cuidar de mim e ser feliz.

E se isso significa beber menos e correr mais, é isso que vou fazer.
Não quero me sentir a tia gorda e encalhada.
Não quero mais passar por momentos de raiva.

NÃO QUERO NUNCA MAIS TER O CARREGADOR DO CELULAR ROUBADO.
Porque olha, ontem eu quase tive um dia de fúria. Tive ganas de quebrar tudo.

Me sinto orgulhosa de não ter chorado.
Ao mesmo tempo acho que deveria ter chorado como há tempos estou precisando.

O que eu sei é: tô gorda. Tô chata.
E não quero ninguém enchendo meu saco.

Setembro trás a primavera. Que eu renasça com as flores.