4 de julho de 2008

Feita de fel...

Era uma manhã como tantas outras. Lá fora o sol reluzia límpido, porém tímido, entre as poucas nuvens daquele céu pintado em azul quase irreal.

Deitada, no quarto, ela acordou por volta das oito, como fazia há quase dois meses. Ainda do quarto ela ouviu ruídos vindos da cozinha. Pelo padrão dos sons sabia que a outra também estava em casa. Ela então desistiu de sair da cama, ligou a TV, na esperança que o tempo passasse mais rápido. Ainda que não tivesse visto a outra, saber-se consciente da presença dela incomodava-a.

Não era para ser assim, mas assim era. Os únicos laços que ligava uma a outra era o nome da outra em seus documentos e o sangue que corria em suas veias.

Chamava-a de mãe, não porque sentia que ela representasse esse papel em sua vida, mas pela repetição que os anos incorporaram ao linguajar. Não reconhecia nela a figura materna querida, comum e normal a tantas outras pessoas.

Não se sabe por que a progenitora era uma pessoa amarga. Praticamente feita de fel. Dela a sua memória não conseguia resgatar sequer uma lembrança de carinho. Era uma procura em vão também. Assim como também era em vão a procura pelo momento exato onde tudo piorou consideravelmente, afinal anos antes ainda havia certo respeito. Não porque se reconheciam como mãe e filha, mas porque a filha não contestava valores, comportamentos e ações.
O que reinava agora era um absoluto silêncio. Nem mesmo olhares elas ousavam trocar.

Ela sentia-se incomodada com a presença da outra. Talvez por isso a evitasse tanto. Talvez ela só temesse crescer e ficar igual a ela: feita de fel.


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