30 de dezembro de 2009

Do chão

A vida tem dessas coisas estranhas, coisas que a gente pensa e diz e outras que preferimos deixar só no pensamento mesmo.

Fim de noite em mais um fim de ano. Lá fora a chuva cai, alternando entre aquela coisa contínua, que refresca, e outros momentos não tão molhados, mas que refrescam também.

Aqui dentro a luz branca faz com que os olhos cansados prefiram a escuridão. O corpo, também cansado, prefere a música calma e o “geladinho” do chão.

Tantas coisas, tantos detalhes. Tua presença doce faz com que eu me esqueça dos problemas ao tocar novamente a tua pele. Marcas registram os momentos de humor.

Não consigo pensar direito. O corpo pesa, a cama chama, mas minha tarefa aqui é registrar minha satisfação, registrar meu sorriso bobo, e por que não, apaixonado.

Paula Toller me faz companhia e diz uma grande verdade: “Depois de você, os outros, são os outros e só.”

Engraçado como comecei a escrever este post ainda no chão, ainda deitada. Fechava os olhos, sentia teu cheiro novamente e sorria. Sorriso leve, desses que a gente dá quando está de bem com a vida, não importa o que aconteça.

Aí lembro das tantas vezes em que eu quis explicar a saudade que eu sinto. E lembro também de como eu gosto de te fazer sorrir e de como gosto de ficar te olhando por minutos a fio, registrando cada detalhe.

Paula continua cantando, lá fora a escuridão tomou conta do céu. Faz calor. Normal para dezembro. Normal para o verão. Normal para querer voltar a deitar no chão.

29 de dezembro de 2009

Abraços Normais

Ao som de Nelly Furtado resolvi registrar minhas experiências sobre “Los Abrazos Rotos” mais recente obra de Pedro Almodóvar.
Não sei exatamente quando comecei a me interessar pela obra do diretor. Se eu não me engano o primeiro filme que vi foi a Má Educação, filme forte, impactante. Após algum tempo chegou as minhas mãos Volver, aí sim a paixão chegou de vez.
Mas falemos de “Abraços Partidos”. Li em vários lugares que a crítica internacional agraciou o filme com elogios. Almodóvar está, de certa forma, retornando ao cinema “arte”. Contudo pra quem acompanha o trabalho de Pedro, ou que assistiu Volver, espera que o diretor se supere em seu novo filme, o que não acontece.

Abraços Partidos não chega a ser um filme ruim, mas não fará tanto estardalhaço quanto “Volver” ou “Fale com Ela” ou o bem humorado “Kika”.

A primeira hora do filme prende de tal forma que gera uma expectativa muito grande sobre o desenrolar da trama. Há um mistério na vida de Mateo e sobre o que acontece com Lena, graciosamente interpretada por Penélope Cruz. Não sei se chega a ser um problema, mas a partir de certo ponto no filme o roteiro acaba ficando um pouco previsível e com cenas soltas, uma delas é a que mostra Diego e as drogas, não há sentido, poderia ter acontecido qualquer outra desgraça pra ligar o garoto ao diretor Mateo. A partir desse ponto o fato de Mateo ser o pai de Diego não causa mais surpresa a quem está assistindo.

Destaque para Penélope Cruz, suas caras, suas bocas e o corpo perfeitamente esculpido aos 35 anos. A trilha sonora do filme também é interessante, mas ainda acredito que Volver surpreendeu muito mais nesses, e em outros, quesitos.

"Abraços Partidos" não chega a ser um filme ruim, muito pelo contrário, todavia, não é uma obra prima.

27 de dezembro de 2009

Um balanço sobre dois mil e nove

Final de ano, poucos dias para 2010 e cá estou eu, escrevendo, como sempre.
Não sei se faço um balanço de 2009 e tento registrar com meias palavras as principais emoções do ano, ou se deixo tudo guardado apenas nessa cabeça oca que por vezes falha.

2009 foi um ano diferente, pela primeira vez estabeleci metas reais e cumpri com parte delas.

Parar de sofrer pelos outros foi uma. Tentar criar paciência foi outra. E acho que em ambas eu dei uma melhorada. Se tem algo que eu realmente aprendi a fazer foi parar de correr atrás de meio mundo, de implorar atenção, por mais que ainda hoje eu faça um pouco de birra, reconheço.

Não é que eu não precise de ninguém pra viver, não é isso. De certa forma eu entendi que a vida é cíclica: pessoas vem e vão como as estações do ano. E pessoas novas chegam, às vezes ficam por muito tempo, às vezes não.

A gente tem dificuldade em deixar ir. Acho que seres-humanos em geral tem essa coisa de não saber colocar fim em determinadas coisas. Fim nem sempre é fracasso. Depende de como você chegou a esse ponto da história. É aquele velho clichê: Felicidade é o caminho e não um destino.

Dois mil e nove chegou pra trazer paz ao coração. Passei boa parte do ano remoendo o fato de não ter ninguém, me torturando e achando que nunca mais fosse gostar, amar, me apaixonar e outros verbos similares. Vi amigos começarem a namorar, e sim, eu admito: invejei. Sei lá, acho que depois de tudo o que eu passei nos anos anteriores eu nunca quis tanto ter alguém e nunca antes (na história desse país coração) me senti tão preparada(?) pra namorar.
Ok, eu sabia que faltava encontrar a pessoa. E firmei o pé na ideia de que, diferentemente de outras vezes, não iria começar um relacionamento acreditando que com o tempo passaria a gostar. Ou você começa já gostando ou esquece. E por substitua o “você” por “eu”.
Tudo bem que meus avós viveram quase 50 anos juntos (meu avô faleceu antes das bodas) e não tiveram essa coisa de namorar e “bibibi”, mas os tempos eram outros, né não?
2009 (e vou começar vários parágrafos com o número) também foi o ano em que me interessei pelas pessoas erradas. Incrível como surgiu gente que estava em outros relacionamentos ou com histórias mal resolvidas. Incrível como o tempo, as situações, nada se encaixava. No meio do ano tive a impressão que eu era “Amante Profissional”. Aí resolvi chutar o balde e cuidar de mim. Fechei o peito pra balanço. Coloquei um ponto final nas minhas histórias do passado e me tranquei dentro de mim mesma. Não quis mais essa coisa de sentir borboletas no estômago. Como diria Zagallo: “Aí sim fomos surpreendidos”. Não preciso nem contar o que aconteceu né? O destino, Deus, a vida, ou seja lá qual designação você queira usar, resolveu me pregar uma peça daquelas: fez o coração bobo da Pri, que estava embalado e jogado no fundo do freezer, igualzinho comida congelada, começar a descongelar e por que não, bater mais forte.
Eu juro que eu tentei fugir. Todavia tem coisas que não tem como fugir MESMO. E atire o primeiro palavrão aquele que nunca se viu babando por um sorriso bonito, quem nunca se apaixonou sem querer. (Aliás acho que paixão é sempre assim: sem querer)
2009 involuntariamente me fez ser tudo o que eu sempre disse que jamais seria: professora. Se bem que se formos analisar ensinar é uma vertente da comunicação: é transmitir conhecimento e tem a ver com aquela coisa do jornalista querer “formar e informar”. Dar aulas mostrou-se uma atividade um tanto quanto interessante. Algo apaixonante. Definitivamente viciante. Do contato com os alunos à satisfação de sentir-se parte da vida de alguém, tudo carrega um gosto especial.
E aí lembro, sei lá porquê, dessa necessidade visceral de nos sentirmos parte de um todo. Inclusão e afins. A gente sempre quer ser parte de algo. Seja pelas diferenças, seja pelas semelhanças: temos uma tendência ao grupo, ao time, ao elo, ao integrar algo.
Foi um bom ano, apesar do seu fim meio que caótico, do fim que forçosamente representa pra mim aquilo que de fato é: recomeço.
O que eu espero de 2010? Bom, já tá tarde (são 03h45 aqui no meu relógio) e eu já me estendi demais por aqui, fica pra outro post, ok?
Em todo caso, fica aqui o meu desejo de que o nosso 2010 seja ainda melhor que 2009. Seja repleto de paz, saúde, garra e sabedoria.

15 de dezembro de 2009

Com o passar do tempo

Papai anda esquecendo coisas. Hoje me peguei com medo. Medo do futuro.
Não porque eu forçosamente me torno mais "adulta" com o passar dos dias. Não, isso não me assusta, não me assusta perceber que problema de verdade é pagar conta no final do mês ao invés de chorar o coração partido por conta das paixões não correspondidas. Aliás amores não correspondidos é assunto do qual não posso reclamar. Mas medo porque o tempo está passando pra ele também. Dá um nó na garganta, um aperto no peito.

Perdi meu avô esse ano. Alzheimer. O velho era forte com uma montanha, andava à cavalo com seus 87 anos. Acordava cedo todo dia e mimava os netos, mas a doença o derrubou. No fundo meu avô rejuvenesceu nos últimos meses de vida: voltou a ser um bebê, precisando de ajuda pra tudo, já não pronunciava palavras direito, não comia. Um bebê com a experiência de uma vida inteira, um bebê que criou 12 filhos trabalhando na roça. Pois bem, hoje de manhã deu um aperto no peito e um medo do futuro. Medo de perder meu pai da mesma forma que perdi meu avô.

Tão ruim quanto esse sentimento de perceber que Papai não é eterno e que ele não vai estar aqui pra sempre é a dúvida que acompanha tudo isso: será que sou uma boa filha? Será que sou a mulher que Papai lutou e educou para que eu fosse? Eu poderia ser melhor. E num instante percebo que outra pessoa é a filha que ele esperava que eu fosse. Estranho não?

Papai esquecendo coisas simples, e falando sobre como a gente não vê o tempo passar... E aí eu fico sem palavras. A lágrima expressa o que eu queria dizer.

9 de dezembro de 2009

Intensidades...

Tem muita coisa guardada aqui dentro. Tem muito ponto de vista, muita informação e muita opinião. E tem sentimento também. Não sei por quê, mas a menina, que sempre demonstrava (quase) tudo, resolveu guardar fatos, coisas, acontecimentos e outros “mentos” mais dentro de si mesma.

Passei a observar mais. E quando digo algo, as palavras às vezes vêm com tanta força que eu me machuco ao proferi-las, porque elas – as palavras – ficaram tanto tempo dentro de mim, que o sentimento que dá significado a elas, que dá o porquê delas existirem, cresceu tal qual massa fermentada.

Apertei o pause, mas esqueci que o rio continua a correr. E a água foi acumulando, acumulando. Quando abri novamente as barragens até o “Eu te amo” doeu. Levou parte de algo sólido.

O tempo se foi. Não volta. Quero outros “agoras” pra lembrar mais a frente.
Bocejo, janela laranja, barulho de chuva. Férias, beijo na boca, amor.
Cadê aquele sorriso que me faz feliz?

No fim é tudo questão de intensidade.

6 de dezembro de 2009

Conta-letras

A alma preenche o corpo como a água preenche o copo. Toma a forma, forma-se de novo. Moldes, formas de fôrmas, brincadeiras, entrelinhas...

Um amor. Uma madrugada e palavras desconexas.
No olho o resto do lápis negro, delineando o cansaço da noite. Limitando movimentos e pensamentos, contornando o espaço e encurtando a distância.
Na boca o gosto fresco do creme dental. Ao fim o que ela de fato desejava eram aqueles beijos saudosos, recheados de volúpia com pitadas bem dosadas de paixão...

Um instante, um segundo eterno, uma saudade sem fim. Mais palavras e a total ausência de significados ou coerência naquele texto digitado às pressas.

Letra a letra, as palavras iam surgindo no velho monitor, como conta-gostas, pingando suavemente...
Mais uma dose, mais um trago. E nada parecia suavizar aquela dor.

Sem pensar, desistiu do "conta-letras", apagou as luzes e se foi.