29 de março de 2010

Cecília

Cecília, Seu Paulo, Cecília não é santa.
Cecília está mais pra uma Madalena não arrependida. Mulher de encantos que encantam. Vida boemia e liberdade, vida que no fim do mês não paga as contas.
Tem alma de Capitu essa tal de Cecília, dissimulada, te engole como leão... Só pra matar a própria fome. Te envolve como a bebida, vira vício. Faz da criança de outros tempos mero brinquedo.

Santa Cecília não é residência, não é lar, não é casa, não é a tua casa.
E tuas mentiras só me afastam daquilo que um dia achei belo.

25 de março de 2010

Instantâneo

você não tinha dito antes
ah, achei que tivesse dito. Enfim, vou comer
vem. quer dizer: vai
:*
;]
logo menos. logo mais. logo logo. logomarca. marcas. marcas de amor. tuas marcas no meu corpo. cicatriz. coração
marcas no meu corpo
nossas marcas. lembranças. suspiro. lágrima
tenho saudade
eu também tenho


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conversas imaginadas são as melhores

24 de março de 2010

Pastel de Vento.

Preencho a tarde com a cama, o ócio com a TV.
Preencho a fome com a comida, empurrada à força, garganta abaixo.
A sede, preencho com coca, já sem gás, já sem vida, estupidamente gelada.

Vou colocando coisas nos meios. Sentimentos, pensamentos e outros quinhentos.

(odeio minhas rimas forçadas)

Sobra ausência, mas falta teu abraço pra preencher.
Sobra carência, mas faltam teus carinhos, sobra minha boca, faltam teus beijos.

Tento preencher a vida que levo sem ter você por perto. Releio mensagens no celular. Espero novas mensagens no mesmo aparelho.

Vou colocando coisas com e sem importância numa tarde tão vazia quanto o meu abraço calculado exatamente pra caber você...

No fundo, eu sem você, sou assim: Pastel de Vento.

18 de março de 2010

Sobre ofensas...

Nada se compara ao som daquela risada depois daqueles xingamentos, aqueles que sabemos não serem ofensas, mas o nosso jeito estranho de dizer: ei, eu gosto de você.

E depois do fim, sempre vem o recomeço.

14 de março de 2010

Xadrez

Mãos nervosas e inquietas. A todo instante tateavam o celular na busca cega por uma mensagem que não vai chegar.

O suor inundava a alma. O estômago resolveu inundar-se de ânsia. Era aquela ansiedade novamente. Talvez fosse a idade. Talvez fosse só o coração, partido como tantas outras vezes. Partido, em pedaços, pelo teu partir injustificado.

Pensei em ligar. Procurei teu nome na agenda, e fiquei parada, olhando, já não carregava mais o coração a frente do teu nome. Por instantes toda uma história de amor passou a minha frente, como naqueles filmes em que os casais americanos assistiam a filmes dentro do carro. Assim eu vi os flashbacks dos momentos que eu não sei se eu quero esquecer.

Cadê você? CADÊ VOCÊ? O silêncio responde pela tua ausência.

Inconscientemente tenho te julgado. Julgado tuas promessas não cumpridas.
E deixo de acreditar no "amo mais" por vezes repetido. Agora eu sei que tudo não passou de uma grande mentira. Aliás essa é a verdade que você me tem feito acreditar: tudo não passou de uma grande mentira.

E isso dói. Dói de forma estranha. Dói porque parecia tão real, tão palpável quanto a tua mão bagunçando os meus cabelos. No fim, acho que foi falta de tato. Tato pra perceber que aqui, por trás de todas as muralhas, o tigre - sempre solitário e caçador - tinha sentimentos tão nobres quanto os que deveriam ter aquela peça, a principal do tabuleiro de xadrez. Talvez por isso eu tenha esperado uma certa nobreza. E me frustei.
Me decepcionei.

Pintei de branco toda a minha vida só pra te receber, limpei mágoas, me desfiz de amores maiores que os de todos os contos de fadas, só pra aconchegar você no meu peito.

Agora o que ficou foi esse vazio chato. Essas lembranças, esse não saber:
Não saber como foi o teu dia, não saber do teu riso, não saber da tua rotina, do teu humor, dos teus dramas e até mesmo das tuas mentiras, como aquela, que você sempre repetia às segundas, quartas e sextas. A mentira que quando dita por mim se tornava verdade. E tudo ficou meio a meio. E por incrível que pareça não é um meio a meio proporcional.

Dividimos as dores, as mágoas e os erros, meio a meio, mas a minha metade pesa mais. O tabuleiro, antes preto-e-branco-depois-todo-branco está negro, como a escuridão que abriga o teu medo e as minhas lágrimas.

11 de março de 2010

Esconde-esconde

Faço da prosa um caminho, um ninho.
Me aconchego, me escondo atrás das palavras. Escondo a dor, escondo as escaras.
Esconde-esconde.
Aqui e ali, peças soltas pelo ar.
Incerto. Flecha solta no ar.
Peça a peça. Peça-a-peça. Quebra-cabeça.
Jogo de palavras. Palavras cruzadas.
O que completa a coluna? O que fica no lugar do vazio?

Eu quero a sorte de um amor com sabor de fruta madura, pra poder riscar do meu vocabulário a palavra tristeza.

O verbo é outro. O pronome? Não sei mais como conjugar "nós". E o amor? Ah, o amor ficou oculto, como o sujeito, como eu, que me escondo atrás dos sorrisos, atrás das farpas.

9 de março de 2010

achei por aí

Saudade - texto atribuído a Miguel Falabella

Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé, doem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa,
dói morder a língua,
dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é a saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade de um filho que estuda fora.
Saudade do gosto de uma fruta que
não se encontra mais.
Saudade do pai que morreu,
do amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa.
Doem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida
é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ela no quarto, sem
se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o dentista e ela para a faculdade,
mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-la, ela o dia sem
vê-lo, mas sabiam-se amanhã.
Contudo, quando o amor de um acaba, ou torna-se
menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe
como deter.
Saudade é basicamente não saber.
Não saber mais se ela continua fungando
num ambiente mais frio.
Não saber se ele continua sem fazer a barba por causa
daquela alergia.
Não saber se ela ainda usa aquela saia.
Não saber se ele foi na consulta com o dermatologista
como prometeu.
Não saber se ela tem comido bem por causa
daquela mania de estar sempre ocupada;
se ele tem assistido às aulas de inglês,
se aprendeu a entrar na Internet
e encontrar a página do Diário Oficial;
se ela aprendeu a estacionar entre dois carros;
se ele continua preferindo Malzebier;
se ela continua preferindo suco;
se ele continua sorrindo com aqueles olhinhos apertados;
se ela continua dançando daquele jeitinho enlouquecedor;
se ele continua cantando tão bem;
se ela continua detestando o MC Donald’s;
se ele continua amando;
se ela continua a chorar até nas comédias.
Saudade é não saber mesmo!
Não saber o que fazer
com os dias que ficaram mais compridos;
não saber como encontrar tarefas
que lhe cessem o pensamento;
não saber como frear as lágrimas diante de uma música;
não saber como vencer a dor
de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber se ela está com outro,
e ao mesmo tempo querer.
É não saber se ele está feliz,
e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos.
É não querer saber se ele está mais magro,
se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais saber de quem se ama,
e ainda assim doer…
Saudade é isso que senti
enquanto estive escrevendo
e o que você, provavelmente, está sentindo
agora depois que acabou de ler.

5 de março de 2010

Fechando o verão

É pau, é pedra, é o fim do caminho,
É um resto de toco, é um pouco sozinho

E sozinho assim, fico eu, rodeado de pessoas, rodeado de estranhos.
Entre realidade e devaneios me perco na parte onírica da coisa.

Me perder até você se dar conta de que não é assim que se faz. Temos os ingredientes, mas não acertamos a receita. O quê falta?

Lenine diria que falta paciência. Talvez.
Eu nunca tive muita dessa coisa que anda cada vez mais escassa por aí.
O mundo urge rapidez. E no fundo o que eu quero é fruta madura. E amadurecimento só vem com o tempo.

Me perder até eu me encontrar de novo.
Me perder até as águas de março desabarem e lavarem a alma, limpando meus sonhos, meus planos de todo esse sangue derramado.

Eu me cortei e você nem viu.