27 de outubro de 2010

A guerra no tempo de Cecília

Senti saudades de Cecília. Não porque ela fosse boa companhia, mas porque seus problemas eram menores. Ou porque meus problemas com ela fossem menores.
Naquela época, feridas da guerra não sangravam tanto como sangram hoje. A batalha não era tão intensa e os inimigos eram reais e tinham nome. Nome e sobrenome. Hoje luto contra essa coisa invisível chamada dor.

Tornei-me Maria Dolores. Maria das dores indolores. Maria dessa cegueira branca tal qual Saramago escreveu. Essa coisa branca que envolve e cega. Faz-me bater na mesma tecla. Cecília limpava minhas feridas com álcool. José estava por perto nas horas difíceis. Era ele quem me apresentava novas raparigas. Dessas que todos desejam, mas que poucos se aproximam.

A guerra no tempo de Cecília não era tão dura.

24 de outubro de 2010

Sobre perguntas e respostas

Sabe, eu tinha e tenho tanta coisa pra te falar.
E tantos planos também. E de fato queria sua companhia ao meu lado. Mas acho que você já percebeu que eu gosto de gente que decide. E talvez tenha sido assim, com decisões, atitudes e mudanças que você tenha conquistado tudo aquilo que já conversamos, muito embora você fuja dessas conversas.

Você me conhece tão bem que sabe onde aperta o sapato, onde dói o calo. Às vezes acredito que justamente por isso você deveria saber que não gosto de incertezas ou inércia.

Se me perguntares o que eu quero, vou dizer: quero alguém que queira ficar comigo. Custe o que custar. Não deixo qualquer se aproximar. Sou chata. Pragmática. Um tanto quanto difícil de lidar. Não meço palavras. Não preciso de verdades pela metade. Nem de respostas pela metade. Quero um sim que seja sim um não que seja não e fim. Sem delongas, sem tempo pra pensar, sem enrolações.

Cresci. Envelheci ou tornei-me menos nova. Com o passar do tempo perdi aquela gana de conquistar a qualquer preço. Agora é “quer, quer. Não quer? Não me enrole”.

Eu sei o que eu tenho a oferecer. E sei que não é pouco e sei que é pleno.
Então não cobra de mim coisas que você não pode dar. Não me peça respostas pras perguntas que nem você sabe responder.

perdidas

Onde estão todas aquelas palavras que costumavam preencher esse vazio?


"O certo e o incerto, a gente vai saber..."

15 de outubro de 2010

(des)caminhos

caminhos e descaminhos não me levam à você
do nosso encontro: desencontros
sempre espero
sempre quero

sigo só
sigo em frente
sigo rente

nem tão perto que se possa tocar
nem tão distante que não se possa ver

14 de outubro de 2010

in verso

O inverso do verso não consigo escrever
O contrário do amor não é dor e nem mesmo saudade
Nos riffs da guitarra a melodia de mais um anoitecer

Mais um gole, mais uma taça
E lá se vai mais uma garrafa
Uma ordem: Não desfaça

A roda gira, a vida roda
O que quero é o entorno dos teus lábios
Nossos laços
Teus abraços

Outra música
Outra taça
O que sinto é um misto de saudade com sei lá o quê
O verso agora no inverso, não faz com que eu compreenda você

11 de outubro de 2010

antes da cama

Estou enrolando antes de aceitar a cama como o fim da noite de hoje. Ok, sei que não sem nem sete da noite, mas o cansaço mental tá maior do que o meu corpo pode suportar.

Pensei em escrever em inglês. Sabe como é, treinar um pouco e enrolar meus pensamentos também. Lembrei da proposta que uma vez fiz a minha terapeuta: fazermos uma sessão em inglês, coisa que obviamente ela não topou. Seria controle demais, seria fugir das reações e seria ficar medindo palavras.

Acho que eu sempre meço palavras. Por mais que eu diga coisas sem pensar, essas coisas sem pensar com certeza já estavam no "arquivinho" de coisas "sem pensar" que um dia podem (poderão) ser ditas. Entende?

Hoje foi, ou está sendo, um dia estranho. Eu não quero machucar ninguém. Mas também não quero que me machuquem.

Estou aleatória. Mais do que o de costume. Me sinto um caleidoscópio de sentimentos.
Aí eu fico girando, girando, girando.
Sei lá, acho que espero atitudes enérgicas, mesmo sabendo que no momento isso não resolveria absolutamente nada.

Confesso que estou remoendo coisas. Diversas. Boas e ruins, mas ruins principalmente. Eu preciso deitar. Preciso dormir.

Pena que meu sono não me leva de volta ao ponto em que eu gostaria que representasse o início de algo novo.

10 de outubro de 2010

sobre dúvidas e frustrações

Procuro palavras que não devem ser ditas. Procuro no silêncio uma lembrança que acalme o coração. Tudo é está confuso e turvo à minha frente.

Na verdade comecei a escrever estas palavras ainda na noite de ontem, quando eu achava que ainda tinha algo de certo na vida. Ou que eu pelo menos tinha um destino. Odeio promessas não cumpridas. Aí fico com esse gosto amargo na boca. Eu sempre tenho um motivo pra carregar esse sabor. É misto de todas as coisas ruins que ando sentindo nos últimos dias.
Tem horas em que me pergunto o que eu realmente quero para a minha vida. O pior é ter certeza do que eu quero e ter medo de “bancar” a minha atitude. Sou do tipo que aprendeu a não interferir na vida dos outros, mesmo interferindo. Sugiro minhas vontades, mas daí a fazer a escolha, não, não dá.

Se há algo que digo é que escolher sempre implica em abrir mão de algo. Talvez por isso minhas escolhas sejam veladas, é difícil abrir mão, mas no fundo eu sempre sei que se for preciso eu abro. Dói perceber que justo no momento em que eu precisava que abrissem mão de algo por mim, não o fizeram. Isso ainda está doendo. Isso está doendo de novo. É mágoa, é trauma, é sentimento de rejeição.
Aí fico aqui, escrevendo palavras sem rumo, como se isso estancasse essa tristeza que escorre aos litros por aí.
Por instantes tive certezas. Certezas tão grandes que me fariam “chutar o balde” em muito sentidos. Pena que foram apenas instantes.
Minha mania de querer controlar tudo, querer controlar todas as jogadas dessa coisa chamada vida, atrapalha quando não agem conforme o esperado. É eu sei, tenho que parar de criar tantas expectativas.

Às vezes me pego pensando se esses casais que são eternos apaixonados, desses que estão casados há tantos anos, se no início eles tinham dúvidas, fico me perguntando se sempre foram certezas. Respostas? Não sei quem as tem. Sei que no momento o que quero é distância daquilo que não me faz bem.

5 de outubro de 2010

Sobre a festa

Era mais uma entre tantas outras festas. Mais um casamento, não fosse a ausência de mensagens no celular, não fosse a diferença de idade entre os noivos, aquela seria uma noite como qualquer outra, mais uma entre tantas.

Seria mais uma noite onde eu explicaria o meu emprego e o porquê de eu trabalhar num horário doido, tudo isso pela enésima vez. Responder às mesmas perguntas às vezes (quase sempre) me cansa.

Os noivos, desta vez de outra cidade e não desta que habito, eram um casal diferente. Talvez o mais diferente que eu tenha tido a oportunidade de colocar sob o foco das minhas lentes. Ela com seus quarenta e poucos anos e ele recém-chegado à casa dos trinta. Já viviam juntos. Dizem que as pessoas quando convivem demais começam a ficar parecidas. Deve ser. O noivo é jovem, mas tem um semblante de pessoa responsável, sereno. A noiva não aparenta ter a idade que tem. Deve ser por ter ao seu lado uma fonte de juventude.

Poderia ser mais uma entre tantas festas. O fato do casal já viver junto por volta de quinze anos não deveria pesar. Era só uma festa. Era pra ser só uma festa.

Senti falta das mensagens de carinho que costumavam chegar em meu celular, e que eu furtivamente costumava me esforça pra responder.
Atrás da mesa do bolo reparei nas pessoas ali presentes. Dançando, bebendo, celebrando. E vi que aquilo era real. E era real porque todos compartilhavam da alegria daquele casal. Era de fato uma festa. Não era a continuação de uma cerimônia, não era “uma festa porque nos casamos”, não era apenas um protocolo, era de fato alegria esbanjada. Enquanto sentia a alegria das pessoas a minha frente, senti vontade de chorar. Contive-me. Mas a vontade ficou ali.
Chorei por dentro, enquanto me perguntava se algum dia eu celebraria algo parecido, enquanto perguntava a mim mesma se eu teria a oportunidade de viver uma felicidade tão real quanto a daquele casal tão diferente e ao mesmo tempo tão cúmplice.

Prometi a mim mesma que registraria os pensamentos surgidos naquele momento. Era uma emoção diferente. Alheia. Quiçá única. Agradeci por ter testemunhado tamanha alegria. Quero conquistar isso pra mim também...