6 de novembro de 2010

meu herói

Meu pai pode até não saber, mas acho ele o cara mais incrível da face da Terra. Se a maioria das pessoas tem um apego com a mãe, aqui em casa as coisas mudam de lado: meu pai, meu herói.

Ainda que a gente passe dias sem trocar muitas palavras, tenho por ele uma admiração do tamanho do mundo.

Papai por vezes lembra meu avô: quietão, dias falando somente o necessário.
Nossa relação alterna entre dias com inúmeras conversas e temporadas em silêncio, mas sabemo-nos presentes.

Podemos passar dias só falando o mínimo do mínimo, mas sei que ao abrir a porta do meu quarto vou encontrar o “Velho” na cozinha ou assitindo televisão. Ouvir seus barulhos pela casa ou enquanto ele cozinha é “vê-lo” vivo. E isso me basta.

Tudo bem que prefiro longas conversas, prefiro ver o pôr-do-sol ao lado do cara que me ensinou alguns dos principais valores que carrego comigo, mas temos nosso momentos de silêncio. Acho que nisso puxei meu pai: o temperamento um tanto quanto sistemático. Não que isso seja um problema, é uma questão de saber adaptar-se.

O pai me ensinou a correr atrás do que quero, meu deu asas muito cedo. Ele saiu de casa cedo. Com 12 anos mudou-se da roça para a cidade para estudar e cuidar dos irmãos mais novos, deixando para trás as lavouras de café do sul das Minas Gerais.

Mesmo tendo sido alfabetizado mais tarde, não perdeu o interesse pela coisa: estudou em colégio de padres, talvez por isso tenha entrado no seminário em Aparecida. Não ficou muito tempo. Terminou os estudos por lá. Não sei depois de quanto tempo veio parar em São José. Dividir uma casa de dois comodos com um dos meus tios.

Papai conta que nessa época ele não tinha relógio, então durante a noite às vezes levantava e ia até a praça de uma das igrejas perto da “casa” onde ele morava para ver as horas e não perder o horário de ir trabalhar. Trabalhou, deu duro na vida, até porque não é fácil trabalhar durante a noite e estudar pela manhã e foi assim que ele formou-se em Psicologia.

Hoje, aposentado depois de 30 anos na mesma empresa, ele ainda acorda cedo: se você chegar em casa as cinco e meia da manhã com certeza vai sentir o aroma do café fresquinho que ele provavelmente acabou de passar.

Ele pode não saber, mas encho a boca pra dizer que sou filha dele.
Ferreira no sangue!

Talvez por ver esse tamanho exemplo eu acredito que eu posso, ou na verdade, deveria, ser bem melhor. Na minha cabeça eu tenho que ser muito melhor, afinal tenho muito mais oportunidades. Me cobro de inúmeras coisas e no fim, acho que ele espera mais de mim.

E se tem algo que me mata é pensar se estou deixando a desejar na frente do meu herói.

Um comentário:

  1. Eu tenho exatamente a mesma sensação com meu pai.. de um modo ou de outro, tudo o que eu faço é pra que ele sinta orgulho de mim, mesmo que reflexamente ou inconscientemente. Já me disseram que eu tinha que "cortar o cordão", parar de tratá-lo como uma extensão de mim e seguir meu próprio caminho. Mas parece que isso já faz parte de mim... Beijos, belo texto!

    ResponderExcluir