28 de julho de 2011

Estação fora do centro


Sabe, eu curto essa coisa de sair escrevendo sem eira nem beira, sem querer chegar a lugar algum.
Gosto da maneira como letra à letra, as palavras surgem. E eu gosto de me repetir, de reafirmar minhas ideias.
Gosto também da paixão que brota sem querer, que surge como o sol no horizonte e aquece - ternamente, como calor de colo amigo - até mesmo a mais fria das noites.

Conto minutos para um horário incerto, para um momento que não é calculado com o badalar do sino do relógio da igreja. Conto contos. Espero. Anseio. Desejo.

Aumento um ponto. Reticências...
Várias.
Variáveis.

Possibilidades. Pos-si-bi-li-da-des. Repito em voz alta.

É noite e na rua lá fora só ouço alguns poucos carros a passarem correndo pela avenida. Um som abafado e longe, mas ao mesmo tempo próximo, como se o passar dos carros fosse um sinal de que a vida continua, sem cessar... Sempre correndo...
Mais reticências...
Mais paixão.
Mais um sentimento que é criado apenas para preencher com palavras um espaço que antes não existia. Mais um desejo, e mais uma vez me repito.

Uma vez eu disse que sou excêntrica, uma coisa assim fora do centro, original, extravagante... Apesar disso, acredito que mesmo estando fora do centro sou um círculo e vivo de ciclos... E essa sensação de viver em ciclos de certa forma me conforta e me faz sentir natural como as estações do ano: que se repetem sem jamais serem iguais.

22 de julho de 2011

Vermelho paixão

Mais um daqueles contos, quase do vigário, mas sem santidade alguma.
Desta vez são apenas palavras sobre um cotidiano comum e repetitivo. Um algo que não existe, mas precisa ser criado.

Manhã tão bela, inverno quase no fim. Céu azul característico desses dias secos no interior. Ao meio-dia era possível ter aquela ilusão de ótica quando se olha para o asfalto quente e achamos que está tudo molhado.

No caminho de volta, um pé com frutinhas vermelhas chamava a atenção de quem por ali passasse. Não lembro o nome da planta e menos ainda de seu fruto, sei que sua cor era como paixão: intensa. Os frutos pareciam doces, afinal os mais altos foram devorados pelos pássaros.

Naquele dia, justo naquele dia, enquanto ali passava e notava a cor vibrante, xinguei-me em pensamentos por não ter comigo a câmera fotográfica. A velha e boa câmera fotográfica herdada do avô, com avanço manual do filme.
Provei da fruta. Não resisti. Resistência também faltou ao meu corpo minutos depois: mal lembro como cheguei até em casa.

Caí em febres por toda a tarde. Delirei.
Entre delírios e arrepios, sonhei com um par de olhos amendoados. Bonitos. Dóceis. Misteriosos.
A febre passou. A dor se foi.

Ficou a lembrança daquele par de olhos a me fitar. Passei a procurar pelos par de olhos em todo canto, queria saber a história, saber o que já haviam visto por aí, que sentimentos haviam causado em quem os carregava na face.
Tão intensa quanto o vermelho da fruta foi a paixão que brotou em mim por aqueles olhos que nunca descobri de quem realmente são.

Vez ou outra, os vejo, ora dormindo, ora lembrando-me dos sonhos... Sempre questiono se o sabor dos lábios dos olhos amendoados seriam tão doces quanto a fruta que me fez arder em paixão...

15 de julho de 2011

Gap


Não é que os bons e velhos amigos já não são tão bons e tão chegados... Não é porque um email não é enviado ou uma pergunta não é feita que não quero mais saber como está tudo e todos...
Não é que falta carinho. Na verdade, na vida a gente vai levando as coisas meio que no malabarismo, tem sempre algo na mão e sempre algo no ar.

Às vezes algo fica mais tempo no ar, enquanto a gente lida com coisas mais pesadas... Enquanto uma dor insiste em doer, enquanto existe uma noite mal dormida... Enquanto o humor não é dos melhores...
Tem coisas que pra eu não deixar cair, prefiro não segurar... E pra outras coisas prefiro exagerar nas reticências. É uma continuidade que pode, ou não, existir...

É estranho quando tudo começa a ficar legal, e ao mesmo tempo você nota que ainda falta algo... Será que todo mundo é sempre assim... incompleto?