22 de julho de 2011

Vermelho paixão

Mais um daqueles contos, quase do vigário, mas sem santidade alguma.
Desta vez são apenas palavras sobre um cotidiano comum e repetitivo. Um algo que não existe, mas precisa ser criado.

Manhã tão bela, inverno quase no fim. Céu azul característico desses dias secos no interior. Ao meio-dia era possível ter aquela ilusão de ótica quando se olha para o asfalto quente e achamos que está tudo molhado.

No caminho de volta, um pé com frutinhas vermelhas chamava a atenção de quem por ali passasse. Não lembro o nome da planta e menos ainda de seu fruto, sei que sua cor era como paixão: intensa. Os frutos pareciam doces, afinal os mais altos foram devorados pelos pássaros.

Naquele dia, justo naquele dia, enquanto ali passava e notava a cor vibrante, xinguei-me em pensamentos por não ter comigo a câmera fotográfica. A velha e boa câmera fotográfica herdada do avô, com avanço manual do filme.
Provei da fruta. Não resisti. Resistência também faltou ao meu corpo minutos depois: mal lembro como cheguei até em casa.

Caí em febres por toda a tarde. Delirei.
Entre delírios e arrepios, sonhei com um par de olhos amendoados. Bonitos. Dóceis. Misteriosos.
A febre passou. A dor se foi.

Ficou a lembrança daquele par de olhos a me fitar. Passei a procurar pelos par de olhos em todo canto, queria saber a história, saber o que já haviam visto por aí, que sentimentos haviam causado em quem os carregava na face.
Tão intensa quanto o vermelho da fruta foi a paixão que brotou em mim por aqueles olhos que nunca descobri de quem realmente são.

Vez ou outra, os vejo, ora dormindo, ora lembrando-me dos sonhos... Sempre questiono se o sabor dos lábios dos olhos amendoados seriam tão doces quanto a fruta que me fez arder em paixão...

Nenhum comentário:

Postar um comentário