15 de setembro de 2014

O último

O último cigarro foi aceso no caminho pra casa.
Parei no sinal vermelho ainda embrigada com os prazeres de uma boa conversa, olhei a noite e resolvi acender.
Seria uma despedida. Despedir depois de me despir da vergonha, dos preconceitos, das máscaras sociais.

Eu já havia bebido, mas desejei mais uma cerveja.
Acendi o cigarro. Enquanto tragava, pensava na vida.
O sinal ficou verde.
Combinação automática de ações: pisar na embreagem, engatar a marcha e acelerar. Mas eu não quis imprimir velocidade.
Arranquei calmamente, analisando cada movimento.

Eu não queria chegar em casa.
O último cigarro foi consumido em câmera lenta.
Enquanto me desfazia da fumaça, lançava fora cada problema. Na fumaça que subia aos céus, subia uma prece pedindo por paz.

Pela janela observei a cidade a dormir. Sempre gostei de dirigir de madrugada. Me encontro nos meus caminhos solitários.
O rumo está certo, e eu vou devagar, sem pressa pra chegar.

O último cigarro não foi fumado por stress ou coisa parecida.
O último foi minha despedida.

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